terça-feira, 29 de junho de 2010

A necessidade de rotular




Com a agenda apertada, percorro um caminho de quinze minutos até o supermercado mais próximo do meu trabalho. Almoçar já não existe mais no meu vocabulário, muito menos na minha rotina. Vou a supermercado para suprir minhas necessidades após as dezoito horas, ou seja, o jantar.

Em plena quinta-feira o mercado esta lotado. Dia de frutas e verduras mais baratos. Me deparo com centenas de idosos fazendo compras. Ao menos uma vez por semana eles podem se reunir para discutir o preço da batata ou as notícias que leram no jornal pela manhã.

Sem prestar atenção, respondo uma pergunta automaticamente. Ajudando uma senhora a escolher a marca do arroz, digo leve esse. Esse arroz compensa mais, pelo preço e pela qualidade.

Percebo que ela passou ao menos cinco minutos analisando os rótulos de diversos embalagens até tomar sua decisão.

Rótulos, simples palavra que possui dimensões imensas que envolvem uma simples embalagem de molho de tomate até o julgamento e preconceito da sociedade.

Ser vegetariano, gay, católico, emo, tudo isso não passa de rótulos.

As pessoas necessitam de rotular e rotular outras pessoas para se auto afirmarem.

O rótulo contém todas as informações necessárias para descrever um produto ou uma pessoa. O que a maioria não percebe é que o rótulo possui informações reduzidas, resumidas. Mas o que realmente há por trás de cada rótulo?

Percebo que já estou atrasada, passo no caixa, compro o jantar e volto correndo para o trabalho.

Raquel Casciato

O Homem Invisível



Ele era apenas um homem comum dentre milhares existentes na Terra. Nasceu em um bairro humilde e morava com os pais e com os irmãos. Quando criança ajudava a mãe com as tarefas de casa, ia pra escola, brincava, como todas as crianças normais. Cresceu, teve seu primeiro, segundo, terceiro emprego, se casou, teve filhos. Porém, esse homem tem um diferencial, uma característica que muitos homens e mulheres também possuem: a invisibilidade. Aí você se pergunta "Isso é possível?". É, infelizmente é!

Este homem trabalhador, todos os dias acorda cedo e vai fazer seu importantíssimo serviço; ele é faxineiro de uma empresa, lugar onde, de segunda a sábado, ele trabalha por mais ou menos uns sete anos. Lugar que é quase seu segundo lar, pois passa mais tempo lá do que na sua própria casa. Lugar em que conhece todo mundo, mas ninguém o conhece, pois afinal, ele é invisível.

Sua invisibilidade não é escolhida, mas sim atribuída. Às vezes, intencionalmente, outras sem intenção, mas é atribuída.

O serviço desse homem, que é algo tão importante, tão necessário para todo mundo, quase sempre também é invísivel. Só é percebido quando não feito ou desrespeitado, e somente nessa hora, o homem passa a ser visto. Este serviço, quando não feito, faz uma grande falta, pode até prejudicar a saúde, e quando desrespeitado, ao que o homem percebe, muitas vezes, seu trabalho não é valorizado.

Seu nome, ninguém conhece, pois ele é invisível. Está sempre acompanhado de seu fiel amigo: o silêncio(!): ótimo companheiro quando se quer pensar, mas estar acompanhado dele todos os dias é de se querer chorar, pois vida de homem invisível é extremamente difícil.

Como está sempre com o silêncio, quando raramente ouve um simples saudação, até se assusta, espantado por ter sido visto. Coisa triste de se ver, coisa horrível de se perceber.

Todos os dias ele tem essa mesma rotina: casa, trabalho, silêncio e casa; não que ele não seja feliz, pois ele é! Porém esse homem quer ser visto pelos outros. Não que ele não goste de seu trabalho, pois ele gosta, o bastante. Mas gostaria que seus semelhantes o vissem pelo menos um pouquinho e desejaria ter seu trabalho reconhecido; faz este serviço tão importante para a sociedade, mas que permanece invisível para ela.


Escrito por: Juliana Nascimento

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Roupa Íntima


Não leve a mal, eu poderia escrever sobre qualquer outra peça de roupa. Talvez alguma mais vistosa aos nossos olhos, que enche o olhar com mil detalhes da última moda. Mas nenhum outro item seria tão íntimo como o pijama. Falo daquele traje que é só seu, de se usar em casa nas horas mais preguiçosas do dia.
Às vezes, sobra tão pouco dessas horas que esquecemos dele guardado no fundo de uma gaveta junto com nossas peças menos usáveis. Mas é só uma folga chegar, uma crise afundar ou um namoro acabar que lá vai nosso fiel escudeiro de volta ao trabalho e, em questão de segundos, nos tira de um meio público onde vestimos as roupas pelo intuito de nos apresentar à sociedade, e então entramos numa zona de conforto só nossa, num universo que só cabe a nós.
Qual outra roupa te deixaria tão confortável diante destas situações desmerecidas da vida? Um terno pode trazer mais segurança nas horas de se apresentar em público, e um vestido de festa arrasador certamente nos trará mais confiança naquela ocasião importantíssima. Mas quem disse que confiança remete conforto? Na hora do aperto mesmo nada como aquele bom e velho pijaminha.
Velho, fora de moda, talvez já um pouco esgarçado e com aquele furinho debaixo do braço. Jogar fora? Impossível. Certamente ele já foi parar na pilha de "roupas para doar", numa atitude mais rebelde de nossas mães, mas corremos para resgatá-lo, quase como um final de filme esperançoso de amor.
Tenho uma pequena equipe desses, que me acompanha há um bom tempo. Criamos uma espécie de relação confidencial e eles percebem quando estou com frio, calor... Com saudades do namorado (aquele moleton dele antigo, mas tão protetor!), com vontade de me cobrir inteira pelo edredom e não sair mesmo se o mundo acabar (os mais confortáveis do mundo - sim, de algodão!), e aqueles que acompanham os dias que não quero fazer simplesmente nada, só ficar em casa de pijama o dia todo. Porque ficar de pijama o dia todo significa o máximo de descomprometimento com o mundo, e talvez essa seja a nossa única oferta anti-stress natural na atualidade. E acredito na máxima que tempo é a melhor qualidade de vida que podemos ter. Ou não, pois, me desculpem, mas tenho que tirar o pijama e colocar uma roupa mais apropriada para começar essa manhã de sábado.
Por Élita de Caria
Imagem: Getty Images

quarta-feira, 23 de junho de 2010

O Tempo


por Orlando Olivas





O tempo é uma coisa tão estranha!
Ele muda, esquenta, esfria... Ao mesmo tempo passa, demora pra passar, passa voando... Mas por que o tempo simplesmente não pára?
Ou volta?
Assim seria mais fácil entender o tempo.
O mesmo tempo de uma partida é o tempo da pipoca ficar pronta. Tudo é relativo.
Mas e o tempo? O que isso tem a ver?
Não sei. Acho que estou mesmo é perdendo tempo mesmo escrevendo asneiras a essas horas da madrugada, mas é que sempre quando me pego pensando nele...

Tempos passados... Tempos modernos!
Mesmo se o relógio parar, o tempo continua correndo.
Quando tento pensar no “tempo” do meu fim de semana, penso na relatividade dele.
No tempo, gasto em voltas em shoppings, tempos perdidos no trem e no metrô, tempo gasto pensando em você, tempo de espera na fila da montanha russa, e tempo andando na mesma.

Tempo em que as pessoas olham nos olhos das outras, tempo em que apenas uma palavra faria diferença, tempo em que abro a porta e apenas uma respiração compensa horas de conversas...
Tempos em que sinto raiva, ciúmes, aversão, e principalmente, o tempo nulo que cada emoção que sinto demora a mudar para o seu oposto.
Será que existe tempo para se sentir algo? Ou tempo para deixar de sentir?
Tempo de crescer? Tempo das pessoas pararem de fingir que tudo esta bem?

Vou passar um tempo fora...
Mas esse “tempo” pré-requisitado será um tempo para mim, um tempo de reflexão, maturidade, adaptação... Tempo egoísta por assim dizer.
Todo mundo deveria ter seu tempo, porque, realmente, o tempo é uma coisa muito estranha!

terça-feira, 22 de junho de 2010

Amor embrulhado em um laço















Por Fernanda Barbosa





Dia dos namorados, que data romântica e alegre para aqueles que namoram. Mas quando uma data explicitamente comercial atinge seu objetivo de puro consumismo fazendo com que os apaixonados percam seus últimos fios de cabelo pensando em qual presente dar e em como pagar por eles. Será que nesse ponto a data não perdeu totalmente seu significado?

Existem dois tipos de desespero: o dos casais que não se conhecem e daqueles que se conhecem demais. Os recém-apaixonados se debruçam na aflição de dar um presente que agrade alguém totalmente misterioso e que nessa fase pode mascarar seus verdadeiros gostos. Mas, talvez, pior do que isso seja a agonia de já ter esgotado todos os tipos de lembrancinhas e presentes em muitos anos de convivência.

Agradar é realmente uma tarefa muito difícil. O ser humano é imprevisível e pode até mesmo ser cruel ao ver sua vontade ser contrariada ou suas expectativas não serem atingidas. O amor supera o sentimento materialista? Ao menos deveria.

Que os balões vermelhos e corações que enfeitam as lojas sirvam para despertar outros tipos de sentimentos, até mesmo naqueles que não ganharão um presente. Que nesse clima possamos sentir algumas coisas que estão em escassez em todo o mundo, coisas simples como companheirismo, gratidão e o próprio amor. Mas falo de um amor sem interesses, de um amor que não precisa de presentes para ser cultivado.